O Bumba-Meu-Boi Como Conheci, de Zelinda Lima

O Bumba-Meu-Boi como conheci — Zelinda Lima

Role para ler
Flor bordada em miçangas, detalhe do livro
Bordado em miçangas
Bumba-Meu-Boi

Minha paixão

Ainda hoje me lembro do meu primeiro contato com um grupo de Bumba-Meu-Boi. Que maravilha! O Boi, lindo, bailando pelo terreiro; os Caboclos de Pena imponentes, o Amo, Catirina, o Pai Francisco, o ecoar dos tambores, as matracas estalando… Para mim foi paixão ao primeiro encontro.

Ninguém demonstrava cansaço ou se sentava durante a apresentação. O tempo tinha outra dimensão, diferente da correria atual. As brincadeiras eram mais longas e todos os envolvidos se divertiam muito. O auto era quase sempre encenado e o Boi era mais promessa e brinquedo e menos comercial.

“O Boi era mais promessa e brinquedo e menos comercial.”

Zelinda Lima
Boi de zabumba, também chamado Boi de Guimarães
Boi de zabumba
Sotaque

O mais parecido com um novilho de verdade

O de zabumba, também chamado de Boi de Guimarães, era tido como o mais bem feito, por ser mais parecido com um novilho de verdade. O couro bordado, ofertado pelo padrinho ou por alguém por promessa, era uma espécie de manta, colocada sobre a armação do Boi e atada com o auxílio de botões. A barra (saia) era de chita, passando depois a ser de cetim branco encobrindo as pontas das varas e dando o acabamento à armação.

Os tambores e as zabumbas eram aquecidos em fogueiras para esticar o couro e ajudar a manter a afinação, o que era conseguido também pelo ajuste das cravilhas que prendem o couro.

No terreiro

Os personagens do auto

Cazumbá, Catirina, Pai Francisco — as figuras que Zelinda viu bailar pelo terreiro e que o livro registrou em fotografia.

Cazumbá com máscara e casaca, personagem do Bumba-Meu-Boi
Cazumbá
Catirina e Pai Francisco mascarados
Catirina e Pai Francisco
Menina batizando o Boi de Leonardo em 1975
Deborah Baesse batizando o Boi de Leonardo· 1975
Retratos

Três donos de boi

Retratados em página inteira, com os títulos na letra desenhada à mão que abre cada capítulo do livro.

Laurentino
Boi de LaurentinoLaurentino
Leonardo
Boi de LeonardoLeonardo
Alauriano Campos de Almeida (Seu Lauro)
Boi de LauroAlauriano Campos de Almeida (Seu Lauro)

Os bois da ilha: sotaque matraca

Durante muito tempo as grandes concentrações de Bumba-Meu-Boi em São Luís aconteciam no bairro João Paulo, onde se realizava o famoso “Baile das Mangueiras”, na praça que nessa época era cercada por meia dúzia de mangueiras frondosas. Ali eram promovidos muitos bailes populares, durante os festejos juninos, com música, venda de comidas e bebidas típicas.

Esse sotaque é dominante nos Bois de povoados dos municípios que compõem a Grande São Luís: São José de Ribamar, Juçatuba, Paço do Lumiar e, principalmente, na Maioba, Maiobinha, Panaquatira e Sítio do Apicum, além de aparecer em outros municípios como Icatu. Na capital se destaca o Boi do tradicional bairro da Madre-Deus.

Tabaco, brincante do Boi da Madre Deus
Tabaco· Boi da Madre Deus
Boi de matraca com a zabumba Alegria
Boi de matraca

Bois de orquestra

Cordão de mulheres do Boi de Morros
Cordão de mulheres· Boi de Morros

O Bumba-Meu-Boi desde sempre esteve presente em vários municípios e povoados do estado. Com o correr do tempo muitas pessoas passaram a organizar a brincadeira em diferentes localidades, a botar Boi por promessa ou por saudade de seu torrão natal.

Essa disseminação natural da brincadeira fez surgir muitos “jeitos” de brincar, gerando diferenças entre os diversos grupos ainda que dentro de um mesmo sotaque. Isso ficou muito evidente entre os Bois de orquestra.

O Boi de Rosário, por exemplo, era diferente dos Boi de Axixá e Morros. Eram pequenas diferenças, porém nítidas: o de Rosário tinha um ritmo mais apressado, os instrumentos básicos eram o banjo, o bombo, a rabeca, o pistom, e os versos das toadas mais curtos que os de Axixá e Morros. Os trajes, embora semelhantes, no Boi de Rosário eram mais caprichados. Toques próprios e sutis que foram dando personalidade a cada grupo, fazendo-os únicos e muito especiais.

Os trajes

Quando conheci, todos usavam calções de algodão, abaixo dos joelhos, à moda de príncipes, com abertura lateral, meias de futebol, sapatos tênis, blusas de mangas compridas bem franzidas, gola alta, curto peitilho de cetim, como um babadouro com franjas de seda e bordado com lantejoulas. O saiote arredondado, geralmente tinha bordados do mesmo motivo: flores, estrelas, pássaros etc., tudo muito simples e romântico: as calças eram pretas, a blusa branca, amarela, azul-claro ou cor-de-rosa.

São Jorge bordado em miçangas no couro do Boi
São Jorge bordado em miçangas
Galeria do livro

Os rostos da festa

Ao fim do livro, Zelinda reúne em dois painéis os antigos donos de boi e as personalidades que atravessaram décadas de brincadeira. Clique para ampliar.

Antigos (donos de boi)

Os homens que botavam Boi por promessa, retratados um a um no livro.

Personalidades

Amos, artesãos e brincantes que deram rosto à festa em São Luís.

“Para mim foi paixão ao primeiro encontro.”

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